20100625

descalçada

Ansiedade. Desperto-me entre os poros sobre lençóis ásperos e não sei o retorno. Não há retrocesso, atraso. Não encontrarei antes de desconcertar os joelhos desvairados. Delírio que parece calçada. Apareça do nada que jaz um talher no chão, já sujo de um desuso de antes. Imundo. Mas o lavar de mãos nunca coube, e vale somente a transparência. Mesmo se invenção, mesmo que defeito. Roeria três unhas pelos apelos inconvenientes, largaria os braços na grama pelas juras adequadas. Não foi, e somente a inquietação retornou, agora indigesta. O assopro da fumaça me resta poluída. Mas vinga a pedra que despenca. No tormento que aflige a redundância, causa o efeito de alívio. Uma agulha toca sutilmente os ouvidos, ocasionando partituras no ar. Percepção que movimenta diariamente os detalhes, do foco aos lapsos. Desatenção que me tropeça de perspectiva e probabilidade. Receio à luz de velas, coragem servida em pratos de condenação.

20100428

estorvo

poderia desgostar de ratos ou flores, cartazes ou paredes brancas, água ou vinho. mas não aguentava à si mesmo com frequência e, frequentemente, se deixava só para aguentar as próximas horas com outros, fossem mesmos ou esboços.

20100322

impermeável

Sempre acreditei na permanência do amor. De como, seja tórrido ou temporal, o tempo não merece nenhuma culpa e pode prosseguir aproximando-o ao intacto. Não acredito que algo que nasça sem pretensão e cresça em forma de invasão mereça ser desconsiderado, mesmo que, na prática, tudo pareça tão irracional. É irracional. Se dar conta de si mesmo já é, muitas vezes, um caminho atravancado, dividir-se pelo equilíbrio de dois é determinar-se em dobro. É irracional mas, contraditoriamente, é preciso coragem. Coragem para dar a cara a bater por algo contemporaneamente mutável. Idêntico aos seres humanos, mas definitivamente brusco.

Passamos por transições que, quer queira ou não, levam dúvidas e certezas de um lado ao outro até atingirem a próxima vírgula. O amor, nem sempre. Frente à personalidade múltipla que acarreta, é infiel a si mesmo. Por isso a violência de uma diferença num domingo cansado do verão. Mas, deturpadamente, luta. Porque não há outro fim nem início, ele é único e, assim como pretende, intransitório. Até segunda ordem surgida da lógica de que é melhor ser um só.

Por enquanto. Um conceito que convence por apenas alguns meses. Não acredito na permanência da solidão, embora sejamos sós e embora a base empírica demonstre que o amor não é de completa compreensão, principalmente em períodos de enchente. Não o é nunca, mas há a perseverança do “achismo” e a humildade do voluntário. Dos donos da verdade aos ávidos por descobertas, o amor é uma variável de longas-metragens água com açúcar e copos americanos em botecos centrais. Pode terminar irreverente, incessante, incoerente. Mas permanece líquido em sua instabilidade.

Guardo como infração todo o amor que tive, mesmo que diverso, no passado. No presente, o revejo em todos os estados físicos que contemplam o anseio, a estupidez e o correio. É como se o amor fosse uma carta escrita por Nelson Rodrigues e Clarice Lispector, revigorando uma combinação indeferível, mas apta ao encontro. É preciso audácia, para que os segundos não se pretendam sós, mas de que sustento vivem os nós a não ser daqueles que desembocam a desatá-los?

Não deixei de acreditar na permanência do amor. Porque o encontro, unido ao indecifrável, é desenfreada primavera. A alergia ao pólen e o apego das flores. Mas se sobrevive, se frequenta. O que ele mais precisa, da maioria dos suplícios, é liberdade da penúria própria dos indigentes; e se tornaria libertário de si mesmo, por meio do entrelace pertinente.

20100217

feixe de névoa

De que nada serve este ser nem tanto. Desacato. É de improvável, é de pupilas ardidas e mãos molhadas. Deslize de migalhas, muralhas, murro em ponta de chave. Para chegar ao motim dos notívagos irreconhecidos pelo desdém. É por isso. E do desastre, que não se pede por muito. Nem por nada que aborreça o descuido. Mero impasse, mero me enlace, com fitas laranjas do gosto da fruta, por mais amarga que queira ser. Por mais doce, suave, ou salgado suor. O pesadelo das horas intermináveis que não se decidem, não concordam, e não exalam odor algum, para que se percam sem que as achem. As perderam num dia desses. Chovia, e o cheiro vinha do alto. Seria possível tal deslize? Os sonhos, os olhares, os desvios, os navios. Aqueles, sem rota. Mera imprevisão. As gotas d'água sempre escorregam pelos poros até o chão. Como a certeza que se tinha: sem vestígios.

20090910

iceberg

Eu lampejo pelas esquinas e aos outros com a sensação de estar sendo refugiado do espaço e do tempo, de quando eles, no esconderijo, se acoplaram e fizeram amor repentinamente, sem dor alguma, sem cor escuta: um ardor cicuta de temor. Um eu vigor de coragem e covardia afronta um incêndio cuspido do vácuo. Asco. Plástica devastação de cabelos embaraçados, para criados mudos que apóiam páginas. Não sei se minhas, se delas, se vossas; se tosses minhas unhas pelas entranhas dos peixes de água doce, não há muito que eu possa comparar: eu, para mim, sou apenas um trejeito sem jeito algum para coisa alguma, restando toda a vigilância sanitária e a erradicação dos erros que o resto comete, à minha outra. O nosso resto, o nosso enfatizado sonho. A concentração do desapego foi mutilada por sua vontade de viver. Pelo apelo que me fizestes, lhe deixei dizer coisas que jamais diria, então aquietei duas coordenadas atravessadas pelo travesseiro amarelado pela nicotina mais densa e pelo sangue envelhecido. Tive que querer morrer para reavivar os mais sinceros sentimentos e querer destruir tudo novamente. No mais básico dos instantes incoerentes, mantive sua silhueta erguida sem conseguir nenhum pingo de reflexo, nem fragmentos quebrados de um espelho em espasmos. A sua maior dúvida era a origem do tremor: da congelante brisa que trespassava seu olhar, da indiscreta chance que acarretava seu andar, ou da simples força que me mantinha de pé?, quando nós resolvemos nos preparar para uma divisão de bens e males, entre nós mesmos e a água que encharca as janelas dessas pessoas que se amontoam, eu vi, minha lágrima e meu sorriso, por estar vibrando pela vibração. Esse caminho de areia que percorrem os pés definitivos e oblíquos. Me perdi para que pudesse encontrar o que há de mais belo em mim. Há um tanto de você, que não sei quem na verdade se diz. Tudo é fuga e água, e alguns detalhes grãos de areia de mim.

20090828

pretérito de marrakesh

Ao se olhar no reflexo de um córrego que passa, é como uma folha úmida se desprendendo do verão: duradouro, e passageiro. Na rebeldia do vento, te vendo atravessar um mar de lembranças, o suor da infância, o tremor da distância. Uma canção que faz relembrar as gotículas do ar se esvaindo pela sala de estar. Em um dia como qualquer lugar, o gás dos automóveis se esgota, e o melhor abuso fazem os pés. Cansados e renovados, se preparam para mais um dia, mais uma história, mais uma época. Como fogos de artifício se revelando propícios. Inesperado.

Na frase mais bem formulada, há uma desordem por sapos. A indiscreta concepção dos seres mais e menos humanos. Em dias como qualquer número, há uma esperança pelos pássaros. Como se fosse um exagero, o rosto da chuva sobrevoa o pretérito dos passos. Em minutos, congelam-se momentos que se salvam.

O sonho, como qualquer fio de algodão, se solidifica em artérias para a procriação de novas fórmulas. Inexatas, incompletas e imperfeitas, mas pela procura de silhuetas indescritíveis. Como o rosto da chuva, que se transfigura no teu. Como o desejo de um tombo na percepção de que há algo maior do que as nuvens que pairam à nossa volta. Como a naturalidade das gotas d’água. Como modos ímpares de se ver a vida.

20090629

inominável

O amanhecer era sua erupção. Despertava seu coração com pulsações mais intensas, que se estendiam por todas as artérias do corpo. Enquanto ela abria os olhos para o cotidiano com a disposição de quem nunca fugiu de nada na vida, o relógio na parede continuava o trajeto que fazia diariamente.

Ela existia só num pequeno piso de cores mortas de um edifício de cinco andares onde apenas viviam outras poucas pessoas; ou nisto acreditava. O barulho que poderia incomodar pelas manhãs vinha da rua. Um ou outro carro, um ou outro cachorro, uma ou outra alma. O resto, as nuvens do despertar, se dissipava antes de chegar à sua inquietude: os golpes que o coração realizava já eram suficientes para o tormento do alvorecer. Mas era o que aplaudia. Fazia com que resistisse pela sobrevivência, mesmo que fosse monótona. A freqüente estabilidade dos batimentos cardíacos matinais lhe mostrava o que nunca soube contemplar, as sensações amargas e doces da vida em sua intimidade. Porém, se dispersava. O tempo voava enquanto abandonava seus lençóis, abandonava os odores noturnos ao banhar-se, abandonava a introspecção do relógio da parede em suas veias. Era acompanhada dele que ouvia os incessantes movimentos da revolução em seu organismo. Quando se permitia invadir as proximidades do que ali dentro repercutia, tudo começava a mudar.


Na exterioridade, já não escutava com tanto vigor seu próprio corpo. Enquanto a cidade se encontrava em buzinas e jornais, para ela, tudo se resumia a um único estrondo que emudecia seu coração. Não porque deixava de atuar, mas se calava frente a tanto excesso. Fora de si, tentava gritar para se sentir vivo, mas ao mesmo tempo se encontrava inútil ao transborde. Para ela, nunca o era. Embora não o escutasse como conseguia em seu apartamento, sabia que ele estava ali, comandando todas as direções de seu sangue, suportando seus olhares ao revés. Era assim que ela se reconfortava: olhando ao revés. Para outros olhares, os de nitidez esporádica, ela somente via aos produtos de supermercado. Laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Os passava pela caixa registradora e os cobrava em sucessões seguidas até alcançar oito horas consumadas. Oito horas sem escutar a si mesma. Oito horas de ausentes corpos fazendo fila em seu silêncio, que persistia com a vontade de voltar ao seu apartamento e escutar enfaticamente e repetidamente, o que a fazia sentir-se diariamente pertencente a algum lugar. No entanto, depois que retornava ao simples entusiasmo de voltar, a noite se havia transformado na invasora de todos os metros quadrados: até da ilesa parede de seu relógio.

Todos os dias ela tinha a mesma sensação: a de retornar a casa depois de anos em algum país inóspito e, ao mesmo tempo, de desalento. Ao passar pela porta de entrada, sentia a transformação: suas artérias voltavam a palpitar, mas agora jaziam mais frouxas. Talvez fosse pelo cansaço acostumado dos ouvidos – pela interação da cidade – o então o cansaço do corpo, ordenando a inércia momentânea, embora ela não soubesse exatamente como explicar o significado de inércia. Poderia ser, meramente, o sentar-se ao lado do relógio na parede, como o cometido habituado. Mas neste dia idêntico a todos os outros, enquanto escutava os ponteiros do coração, se sentiu na extremidade de seu apartamento, onde tudo se resumia a pulsar em suas unhas. O relógio, até agora imune a qualquer alteração do ambiente, começava a desistir. Enquanto isso, ela o observava e descobria, de repente, a invasão que aquele objeto inanimado e dinâmico havia feito em sua profundidade.

O tirou da parede. Encontrou-se, então, com o relógio em mãos e observando a inconfundível marca feita em seu templo, que firmemente permaneceria em sua existência. Não sabia se rogava para que os ponteiros continuassem vivendo ou se os queria mortos antes que ela alcançasse o mesmo fim. Com suplício, sentia seu corpo agora mais próximo de si mesmo, mas somente conseguia advertir ao relógio, e escutá-lo fraquejar. Seus ponteiros iam mais lentos, levando menos segundos na companhia do passar do tempo. Ela imaginou, então, que aquilo poderia durar até o amanhecer que sucessivamente almejava e se sentou à beira da cama apegada ao dono do pulsar de seu corpo. Estava equivocada. Já não tinha forças para se levantar e o som da erupção que vinha todas as manhãs agora se tornava inaudível. Ela ia com ele, se desfazendo com o rumor da noite e a crescente mudez colateral.

Ao concretizar-se a paralisação do tempo, ela se viu paralisada também. Se todo o contexto da vida que se lembrava caminhava ao lado do que ouvia de seu coração, como agora estaria viva se ele jazia imóvel, quieto, sem fazer nenhum ruído que fosse? Reproduziu, com a irreconhecível inércia, a atuação sistemática do ao redor, mas algo lhe dizia para levantar. Reconheceu o corpo morto, assim como o seu também se contemplava. No entanto, se olhou no espelho e, como a uma miragem, obtinha os mesmos movimentos que via outros realizarem, os que passavam sempre acompanhados de laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Estava morta, mas agora era capaz de sair, em efetivo, às ruas: já que seu coração se havia calado.