20090910

iceberg

Eu lampejo pelas esquinas e aos outros com a sensação de estar sendo refugiado do espaço e do tempo, de quando eles, no esconderijo, se acoplaram e fizeram amor repentinamente, sem dor alguma, sem cor escuta: um ardor cicuta de temor. Um eu vigor de coragem e covardia afronta um incêndio cuspido do vácuo. Asco. Plástica devastação de cabelos embaraçados, para criados mudos que apóiam páginas. Não sei se minhas, se delas, se vossas; se tosses minhas unhas pelas entranhas dos peixes de água doce, não há muito que eu possa comparar: eu, para mim, sou apenas um trejeito sem jeito algum para coisa alguma, restando toda a vigilância sanitária e a erradicação dos erros que o resto comete, à minha outra. O nosso resto, o nosso enfatizado sonho. A concentração do desapego foi mutilada por sua vontade de viver. Pelo apelo que me fizestes, lhe deixei dizer coisas que jamais diria, então aquietei duas coordenadas atravessadas pelo travesseiro amarelado pela nicotina mais densa e pelo sangue envelhecido. Tive que querer morrer para reavivar os mais sinceros sentimentos e querer destruir tudo novamente. No mais básico dos instantes incoerentes, mantive sua silhueta erguida sem conseguir nenhum pingo de reflexo, nem fragmentos quebrados de um espelho em espasmos. A sua maior dúvida era a origem do tremor: da congelante brisa que trespassava seu olhar, da indiscreta chance que acarretava seu andar, ou da simples força que me mantinha de pé?, quando nós resolvemos nos preparar para uma divisão de bens e males, entre nós mesmos e a água que encharca as janelas dessas pessoas que se amontoam, eu vi, minha lágrima e meu sorriso, por estar vibrando pela vibração. Esse caminho de areia que percorrem os pés definitivos e oblíquos. Me perdi para que pudesse encontrar o que há de mais belo em mim. Há um tanto de você, que não sei quem na verdade se diz. Tudo é fuga e água, e alguns detalhes grãos de areia de mim.

20090828

pretérito de marrakesh

Ao se olhar no reflexo de um córrego que passa, é como uma folha úmida se desprendendo do verão: duradouro, e passageiro. Na rebeldia do vento, te vendo atravessar um mar de lembranças, o suor da infância, o tremor da distância. Uma canção que faz relembrar as gotículas do ar se esvaindo pela sala de estar. Em um dia como qualquer lugar, o gás dos automóveis se esgota, e o melhor abuso fazem os pés. Cansados e renovados, se preparam para mais um dia, mais uma história, mais uma época. Como fogos de artifício se revelando propícios. Inesperado.

Na frase mais bem formulada, há uma desordem por sapos. A indiscreta concepção dos seres mais e menos humanos. Em dias como qualquer número, há uma esperança pelos pássaros. Como se fosse um exagero, o rosto da chuva sobrevoa o pretérito dos passos. Em minutos, congelam-se momentos que se salvam.

O sonho, como qualquer fio de algodão, se solidifica em artérias para a procriação de novas fórmulas. Inexatas, incompletas e imperfeitas, mas pela procura de silhuetas indescritíveis. Como o rosto da chuva, que se transfigura no teu. Como o desejo de um tombo na percepção de que há algo maior do que as nuvens que pairam à nossa volta. Como a naturalidade das gotas d’água. Como modos ímpares de se ver a vida.

20090629

inominável

O amanhecer era sua erupção. Despertava seu coração com pulsações mais intensas, que se estendiam por todas as artérias do corpo. Enquanto ela abria os olhos para o cotidiano com a disposição de quem nunca fugiu de nada na vida, o relógio na parede continuava o trajeto que fazia diariamente.

Ela existia só num pequeno piso de cores mortas de um edifício de cinco andares onde apenas viviam outras poucas pessoas; ou nisto acreditava. O barulho que poderia incomodar pelas manhãs vinha da rua. Um ou outro carro, um ou outro cachorro, uma ou outra alma. O resto, as nuvens do despertar, se dissipava antes de chegar à sua inquietude: os golpes que o coração realizava já eram suficientes para o tormento do alvorecer. Mas era o que aplaudia. Fazia com que resistisse pela sobrevivência, mesmo que fosse monótona. A freqüente estabilidade dos batimentos cardíacos matinais lhe mostrava o que nunca soube contemplar, as sensações amargas e doces da vida em sua intimidade. Porém, se dispersava. O tempo voava enquanto abandonava seus lençóis, abandonava os odores noturnos ao banhar-se, abandonava a introspecção do relógio da parede em suas veias. Era acompanhada dele que ouvia os incessantes movimentos da revolução em seu organismo. Quando se permitia invadir as proximidades do que ali dentro repercutia, tudo começava a mudar.


Na exterioridade, já não escutava com tanto vigor seu próprio corpo. Enquanto a cidade se encontrava em buzinas e jornais, para ela, tudo se resumia a um único estrondo que emudecia seu coração. Não porque deixava de atuar, mas se calava frente a tanto excesso. Fora de si, tentava gritar para se sentir vivo, mas ao mesmo tempo se encontrava inútil ao transborde. Para ela, nunca o era. Embora não o escutasse como conseguia em seu apartamento, sabia que ele estava ali, comandando todas as direções de seu sangue, suportando seus olhares ao revés. Era assim que ela se reconfortava: olhando ao revés. Para outros olhares, os de nitidez esporádica, ela somente via aos produtos de supermercado. Laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Os passava pela caixa registradora e os cobrava em sucessões seguidas até alcançar oito horas consumadas. Oito horas sem escutar a si mesma. Oito horas de ausentes corpos fazendo fila em seu silêncio, que persistia com a vontade de voltar ao seu apartamento e escutar enfaticamente e repetidamente, o que a fazia sentir-se diariamente pertencente a algum lugar. No entanto, depois que retornava ao simples entusiasmo de voltar, a noite se havia transformado na invasora de todos os metros quadrados: até da ilesa parede de seu relógio.

Todos os dias ela tinha a mesma sensação: a de retornar a casa depois de anos em algum país inóspito e, ao mesmo tempo, de desalento. Ao passar pela porta de entrada, sentia a transformação: suas artérias voltavam a palpitar, mas agora jaziam mais frouxas. Talvez fosse pelo cansaço acostumado dos ouvidos – pela interação da cidade – o então o cansaço do corpo, ordenando a inércia momentânea, embora ela não soubesse exatamente como explicar o significado de inércia. Poderia ser, meramente, o sentar-se ao lado do relógio na parede, como o cometido habituado. Mas neste dia idêntico a todos os outros, enquanto escutava os ponteiros do coração, se sentiu na extremidade de seu apartamento, onde tudo se resumia a pulsar em suas unhas. O relógio, até agora imune a qualquer alteração do ambiente, começava a desistir. Enquanto isso, ela o observava e descobria, de repente, a invasão que aquele objeto inanimado e dinâmico havia feito em sua profundidade.

O tirou da parede. Encontrou-se, então, com o relógio em mãos e observando a inconfundível marca feita em seu templo, que firmemente permaneceria em sua existência. Não sabia se rogava para que os ponteiros continuassem vivendo ou se os queria mortos antes que ela alcançasse o mesmo fim. Com suplício, sentia seu corpo agora mais próximo de si mesmo, mas somente conseguia advertir ao relógio, e escutá-lo fraquejar. Seus ponteiros iam mais lentos, levando menos segundos na companhia do passar do tempo. Ela imaginou, então, que aquilo poderia durar até o amanhecer que sucessivamente almejava e se sentou à beira da cama apegada ao dono do pulsar de seu corpo. Estava equivocada. Já não tinha forças para se levantar e o som da erupção que vinha todas as manhãs agora se tornava inaudível. Ela ia com ele, se desfazendo com o rumor da noite e a crescente mudez colateral.

Ao concretizar-se a paralisação do tempo, ela se viu paralisada também. Se todo o contexto da vida que se lembrava caminhava ao lado do que ouvia de seu coração, como agora estaria viva se ele jazia imóvel, quieto, sem fazer nenhum ruído que fosse? Reproduziu, com a irreconhecível inércia, a atuação sistemática do ao redor, mas algo lhe dizia para levantar. Reconheceu o corpo morto, assim como o seu também se contemplava. No entanto, se olhou no espelho e, como a uma miragem, obtinha os mesmos movimentos que via outros realizarem, os que passavam sempre acompanhados de laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Estava morta, mas agora era capaz de sair, em efetivo, às ruas: já que seu coração se havia calado.

20090525

embora uma presença

Suspendi os dedos frente à face e me resultaram sinuosos. Pelo que já toquei suavemente, agarrei com ânimo, distanciei, suspirei. Foi um cheiro de sangue coagulado, uma impressão de estreitar-me no desalento do que é o de repente esmigalhado pelos reflexos venais, arteriais. Inesperança desesperada. Uma desesperança inesperada veio a proclamar o inconfundível obedecer às lágrimas e, consecutivamente, a crença enfatizada em tudo que se submergiu deixando todos os vestígios. Tornar-me, quase que sagradamente, a lembrança do que agora é efeito de infortúnio, supera qualquer chamada sorte algum dia. Levanta e pega o trem sem rumo, ruma até mim outra vez. Volta à altura de antes, adiciona-te de novo um sorriso aprimorado. A lágrima, é de espessura; mas não acata entorno. Contorno as esquinas invadida e já não vejo saída, percorrem-me seus tatos, seus atos, seus maus-tratos. E por mais que o transcurso seja insolúvel, resulta denso (e) em mim a bucólica e nua maneira de nosso entrelaçar. Restaria o mesmo em ti? Ou desolastes, realmente, minhas marcas no travesseiro? Aos meus sonhos, firmaram intactos. Até mesmo aquele jeito indecifrável de dizer amor, vamos pra casa?